quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Carnaval: a expressão do caos


Ilustração Hernani Dimantas
Ilustração Hernani Dimantas

O Carnaval é a expressão do caos. O batuque ritmado na Bahia reflete no bater asas das borboletas na estação primeira de Helsinque. 

O samba é movimento. O corpo acompanha o compasso da dança. 
Parece o mato que invade florestas. Não precisa pedir permissão. A vida é o samba.
Eu não sou um folião. Gosto dos sambas, das mulheres e das cervejas. Mas essa mistura me deixa perdido no meio da corja da felicidade. Sou um observador participante. 

O meu carnaval imaginário começa quando a festa termina. O Carnaval é a apoteose de um trampo. Pessoas trabalham o ano todo para poder explodir em alegria. Um orgasmo represado que mostra faz das ruas a explosão de sentidos. 

Tudo isso é quase invisível. Está longe das câmeras da globo. Das celebridades, das rainhas que dançam semi nuas pelas pseudo avenidas do Brasil afora. Onde pessoas comuns se reúnem para fazer acontecer. O empreiteiros da colaboração refletem o melhor do Carnaval. A revolução nunca é televisionada.
Desde que o samba é samba é assim.

O Carnaval é estratégia. É o que mais se aproxima da ideia da politica das multidões. Uso como exemplo que com certeza escamoteia a verdade.
Pois, a multidão traz consigo o monstro revolucionário. Digo isso de forma metafórica. A festa não mais pertence às pessoas. O capitalismo desenfreado tomou conta da festa. 

Mas a multidão é a contradição. Ela cresce com o perigo. Ela se reorganiza. Se refaz. 

Carnaval também é processo. Ele acontece. Conta com uma organização implícita. Onde o improviso, a impermanência e a necessidade fazem da gambiarra a expressão do possível. A gambiarra como parte do processo criativo. Com uma chave de fenda e meia dúzia de ideias velhas podemos transformar o mundo.
MacGyver rules... Wink

Mas não existiria essa confraternização pagã se não fosse a vontade das pessoas na construção coletiva. Onde as mascaras escondem os corpos suados e fazem da intenção, o gesto.

O gesto é o amor ao samba. Um guarda chuva de emoções. Que engloba a festa e todos os outros dias. Reproduz nas cordas de um cavaquinho. No tamborim, no reco-reco. O samba do criolo doido.


Hernani Dimantas é artista, escritor e webativista. Desde 1997 tem-se dedicado ao estudo, à discussão e à elaboração de projetos colaborativos em rede, publicando um número expressivo de artigos em livros, jornais e revistas sobre a Internet como um meio aberto à produção coletiva e destinado à troca de ideias e conhecimento entre as pessoas. Doutor pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Autor dos livros: Linkania: uma Teoria de Redes (2010) e Marketing Hacker (2003). Fundador e articulador do projeto MetaReciclagem. Fundador do lixoeletronico.org.

Só não vai quem já morreu!


“E o Mundo não se acabou...” Carmem Miranda

E já que o mundo realmente não se acabou vamos retomar a vida e continuar com nossos planos. E para planejar é preciso sonhar, é preciso exercitar a imaginação, é preciso brincar. Quem aqui já não aprendeu a mexer em uma ferramenta nova apenas “fuçando” ou brincando com ela? A leveza e o aparente descompromisso da brincadeira nos permite uma liberdade para recarregar energias, elevar a mente, deixar os pensamentos fluírem livremente e permitir-se viver experiências.
Carnaval em Olinda
Carnaval em Olinda

O carnaval, como o conhecemos atualmente, teve sua origem nas festas europeias chamadas Entrudos, que quer dizer liberdade... No início essas festas aconteciam somente dentro de casa, no entanto com o tempo elas ganharam as ruas, o que reforça ainda mais a ideia da liberdade. Nessas comemorações todos podiam brincar com todos, desconhecidos, escravos, senhores e senhoras... Talvez o despir-se tenha a ver com isso, estar desconstruído para depois construir-se novamente sob outra ótica. Afinal, às vezes é preciso parar o curso da viagem para entender melhor de onde estamos vindo e que caminho estamos fazendo. Por quem estamos fazendo? E para quê?
Entrudo
Entrudo

"Criatividade é inventar, experimentar, crescer, correr riscos, quebrar regras, cometer erros, e se divertir." Mary Lou Cook
Incorporamos ao nosso carnaval as serpentinas, máscaras, músicas e fantasias francesas, além dos confetes italianos. Uma grande brincadeira para permitir... É permitido ser outra pessoa, é permitido usar uma máscara, é permitido conversar com todo mundo, pegar na mão de quem não se conhece, como diria Carmen Miranda na marchinha “E o Mundo não se acabou...”.
Com o tempo as marchinhas brasileiras começaram a surgir revelando o bom humor e a criatividade típicos nacionais. Foi nessa época que a compositora brasileira Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marcha carnavalesca ("Ô Abre Alas", 1899), começa a conferir um ar mais nacional às canções populares de carnaval.
Vamos acompanhando a história da estrutura do carnaval: primeiro era dentro de casa, depois a festa ganha as ruas, depois transforma-se em cordões e posteriormente em blocos... e depois em multidão! Getúlio Vargas sugere a criação de uma União das Escolas de Samba, uma organização compartilhada de informações e ações práticas em benefício da continuidade dessa festa popular que corria o risco de terminar devido à reurbanização de algumas cidades. União...
Dodo e Osmar criaram o Trio Elétrico em 1950
Dodo e Osmar criaram o Trio Elétrico em 1950

As ideias são assim também, livres... E devem terminar em união e compartilhamento, multidão, um só coro de vozes e baterias. E o trio elétrico, surgido na década de 1950 em Salvado (Bahia), vai seguindo na frente, vai contagiando um murmurinho infindável de foliões prontos a despir-se de quem são para vestir novas fantasias, para ferver... É da ai que vem a palavra frevo, você sabia? Esse calor veio lá de Pernambuco.
"Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu"... ("Atrás do trio elétrico", do álbum Caetano Veloso)
Frevo
Frevo

Esse grande caldo de cultura, de manifestação se assemelha muito ao movimento humano (preste bem atenção, eu disse humano) na web, um murmurinho de vozes, trios elétricos chamando para discussões acaloradas, para brincar, para fuçar, para aprender, para compartilhar, para se permitir... Só não vai quem já morreu. “A internet não tolera indolentes” (Daisy Grisolia).

“Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor
Por isso eu não quero lembrar quando partiu meu grande amor
Ai, ai, ai ai, ai ai ai,está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora”...


Escopo, recursos, tempo...


Bateria da mocidade independente da Nova Corumb
Bateria da mocidade independente da Nova Corumbá


Escopo, recursos, tempo, qualidade, fatores de risco x fatores de sucesso...e por aí vai a lista dos elementos analisados em um projeto, segundo os cânones do PMI.
As escolas de samba, foram analisadas como modelo de projeto em que todos os requisitos são brilhantemente executados, sem que exista uma documentação formal e estruturada. Na hora certa, 4000 a 5000 pessoas estão no local certo, com as roupas corretas, em posição e sabendo exatamente qual o papel a executar. Precisão quase milimétrica ao lado de espontaneidade e invenção.
Como é possível? Objetivos claros e compartilhados. Comprometimento e desejo comum. Entusiasmo e Colaboração! Vc já pensou como seria criativo levar essa sabedoria para a outra escola? Aquela que vivemos dizendo que não funciona, porque de algum modo ficou tão engessada que perdeu o espaço para tudo isso?




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Meu projeto acabou... E agora?


Conheça os principais editais para projetos culturais para 2013 e saiba o que é Economia Criativa e Economia da Cultura
Sobre o desenvolvimento e economia da cultura existem duas áreas diferentes, definidas por termos que ainda não se consolidaram muito bem no Brasil: Economia Criativa e Economia da Cultura. Ana Carla Fonseca, economista, doutora em Urbanismo, autora de oito livros e conferencista e consultora Internacional que atende Órgãos públicos e privados e ONU, nos orienta que esses dois termos não são sinônimos.
O termo Economia da Cultura surge na década de 1960, por uma iniciativa cultural, uma época em que a indústria automobilística e a tecnologia estavam ganhando cada vez mais espaço e os empregos começavam a diminuir. “Os teatros, em especial da região da Broadway em Nova Iorque, contavam como ainda contam com recursos das fundações como Ford, Rockfeller e outras. Essas fundações começaram a ficar inquietas por que por mais que colocassem verbas e fossem verbas às vezes maiores às vezes constantes nesses teatros muito deles tinham dificuldade de sustentabilidade. Ficava a duvida, será que era malversação de recurso, será por falta gestão o que será que acontece que esses os recursos não são suficientes. Então encomendaram um estudo a dois economistas, Bauman e o Bowie que passaram a serem considerados os pais da economia da cultura para explicar esse enigma”.  (Fonte)
Hoje o bate-papo é com a produtora cultural Ana Fonseca. Mais uma Ana fera no assunto. ;) Ela também é bailarina, fundadora e diretora do Massala Diversidade Cultural, da Rádio Web Sessions Brasil (contemplado pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais - VAI) e possui mais de dez anos em experiência na área projetos em diversos âmbitos culturais.
Ana Fonseca
Ana Fonseca

A equipe InovarEduca perguntou a Ana como anda o mercado de editais hoje?
“O mercado de editais está em um processo crescente já há algum tempo, de iniciativas privadas e públicas também. Porém, ao mesmo passo em que estão em maior quantidade e mais diversificados, estão mais exigentes também. Temos que ficar atentos sempre, pois cada edital está muito mais específico em suas exigências, acabou aquele senso comum de "mandar o mesmo projeto para vários editais".
Quais são os principais Editais que você recomenda para quem quer iniciar um projeto em 2013 e que valem a pena?
“Pra quem está começando e mora aqui em São Paulo, indico o Edital do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) da Prefeitura. É um programa que acredito muito, que prioriza a diversidade cultural, que dá muitas oportunidades, tem técnicos dedicados e é muito parceiro mesmo de todos os proponentes. No Estado de São Paulo ainda tem o Proac, e as Leis de Incentivo Estaduais e Municipais, além do PROAC Editais. Para quem mora em Pernambuco, o Funcultura tem dado bons resultados, e as Prefeituras de Belo Horizonte e Curitiba estão com bons editais principalmente para artes cênicas.
Algumas instituições como o Sesi também abrem editais ótimos, e uma dica são os editais para projetos socioculturais que eu vi para 2013, como o do Fundo Brasil de Direitos Humanos e da UNI Women para projetos que trabalhem a questão da violência contra a mulher”.
Ana também nos conta um pouco sobre a dificuldade em elaborar os projetos para os editais e da importância de se preparar para isso:
“Quando me deparei com o primeiro edital, vi que não era coisa boba de se fazer. Mas também impossível não era. Deveria ter era muita, mas muita criatividade (que transbordasse o nível normal), atenção a todos os detalhes (especialmente os mínimos), cuidado, carinho, e calma (emoção deve ficar de lado na hora da escrita). Ter a cabeça fria para a montagem do projeto é mais que fundamental, mesmo se o coração esteja pegando fogo pela emoção de ver um “filho” (projeto) tomar corpo, crescer e ir para os braços de uma comissão julgadora.
O meu primeiro projeto, não foi exatamente um projeto. Foi uma monografia, uma tese. Poderia facilmente encadernar em capa dura e ser algum TCC. Porém, com o tempo e algumas reprovações, a gente aprende que, também na produção cultural, vale a regra “menos é mais”. Projetos coesos, objetivos, mas nunca, jamais, em tempo algum, incompleto. Deve ter tudo. Meia vírgula faltante é passível de reprovações.
Chegou um determinado momento, que mesmo “fuçando” bastante (porque quem trabalha com cultura é curioso por natureza), percebi que sim, devemos ter uma formação técnica. Atualmente, não tem como. Dentre os vários cursos existentes, escolhi o curso do Senac, em concepção de projetos e foi muitíssimo importante para os meus passos adiante. Hoje, mesmo tendo este e outros cursos na área de produção cultural, a falta que faz um estudo acadêmico é (para mim) gritante. Estou à frente do sistema de produção cultural de muitas coisas: da minha produtora (Massala, aqui mesmo rs), dirigindo a Rádio Sessions Brasil, e na comunicação do Coletivo Perifatividade. Ou seja, estudar virou questão obrigatória. Pós-graduação, aí vou eu”!

Em um dos seus artigos, no seu blog do Massala, você cita o Sebrae como uma das opções para estudar e entender melhor sobre como gerir um projeto cultural, fale mais sobre isso.
“O bom do SEBRAE é que eles ensinam a empreender, no meu caso, que tenho uma produtora, é ótimo porque me dá varias dicas de como tocar a empresa. No caso de quem trabalha especificamente com editais, é bom para aprender a gerenciar o orçamento, especialmente orçamentos grandes, e o produtor não vai ter contador, ou vai ficar de olho no trabalho do contador”.
Ana dá as dicas de onde pesquisar sobre o assunto e onde estudar:
Para pesquisar:





Para estudar:










Pesquisando mais sobre o assunto encontramos mais alguns links que podem ser úteis:


Leia mais sobre o assunto no blog Massala:



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Redes online como instrumentos de intervenção social

Comemorando a 50ª edição do programa Educação e o Mundo Corporativo – EMC² da TVABCD o professor e idealizador do programa EMC², Luiz Carlos Pereira de Souza (Pró-Reitor Acadêmico do UniÍtalo) bate um papo com Daisy Grisolia, professora, webativista, coordenadora do projeto InovarEduca e uma das grandes parceiras do EMC², retornando ao programa pela terceira vez agora para falar sobre “Redes online como instrumentos de intervenção social”.
Está sem tempo ou sem condições de assistir ao programa completo? Confira aqui o que foi falado e fique por dentro!
Web ativista Daisy Grisolia
O professor Luiz Carlos inicia fazendo um questionamento sobre como as redes sociais e todo o movimento online influencia as relações sociais e tudo aquilo que vivemos e temos em nosso dia a dia. Daisy responde que é muito importante relembrar que as Redes sociais são redes de pessoas, pessoas que se encontram, fazem coisas, sonham e realizam juntas. Na web o que temos são ferramentas que facilitam a interação entre as pessoas e agilizam a aproximação entre pessoas que possuem afinidades, ela consegue unir as pessoas que vivem espalhadas pelo mundo e que têm muito a compartilhar entre si. A web funciona como uma alavanca que acelera o processo de encontro entre grupos afins. Luiz Carlos relembra a aparição do fundador da Microsoft, empreendedor e líder Bill Gates, que no dia anterior anunciou publicamente em uma entrevista que possui “a solução para acabar com a fome do mundo” afirmando que da mesma forma com que fez negócios em uma fase de sua vida como empreendedor, a partir de uma determinada lógica, ele acredita que essa mesma lógica poderá ser aplicada para resolver os grandes problemas do mundo. E Bill Gates trata do assunto falando sobre como ‘nós’ podemos resolver os problemas, assim como Barack Obama também se refere sempre ao ‘nós’ e nunca ao ‘eu’. Esse é o verdadeiro pensamento de ‘rede’, de forma articulada e compartilhada o ‘nós’ poderá resolver problemas, discutindo, disseminando informações úteis e aplicando as soluções. A lógica está em medir os fenômenos, o que deu errado, o que deu certo e como analisar essas informações para que se possa chegar a uma solução.
Trata-se então de se profissionalizar os processos com responsabilidade e compartilhamento, ou seja, trata-se de uma corresponsabilidade, tanto dos problemas quanto das soluções.
Na fala do professor Luiz Carlos o enunciado de Bill Gates se resume a: compartilhar a responsabilidade pelos grandes problemas do mundo, estabelecer metas, cumpri-las e assumir as possíveis consequências. Daisy complementa dizendo que quando uma ideia falha é preciso entender o que foi que aconteceu de errado e o que se deve fazer depois disso. Um exemplo forte na rede, a partir da tragédia de Santa Maria. O jornal O Estado de S.Paulo iniciou um movimento online para que os cidadãos comuns denunciassem as irregularidades encontradas nas casas noturnas por todo o Brasil por meio de fotografias e publicassem essas informações na web, nas redes sociais e o jornal iria encaminhar essas imagens para o corpo de Bombeiros. Em pouco tempo descobriu-se que de 330 vistorias foram encontradas cerca de 170 casas irregulares. Estamos começando a dimensionar o porquê da falta de fiscalização. E pela primeira vez estamos começando a medir não de cima para baixo, mas de baixo para cima, ou seja, a iniciativa está partindo da população (os maiores interessados) e não dos órgãos públicos.
Essa ação desenvolve uma cultura diferente de corresponsabilidade, de não sermos coniventes e não termos a memória curta. Pela web temos uma troca de informações rápida e ágil.
Uma boa provocação é colocada em pauta pelo professor Luiz Carlos, dizendo que os webativistas estimulam a sociedade do ter e não a do ser. A resposta de Daisy nos relembra que a nossa sociedade ávida pelo consumo é avaliada pelo que possui e pelo que aparenta e não pela sua essência. A culpa disso é do sistema capitalista, e não dos webativistas. Pelo contrário, essa geração trabalha com outra lógica e opção de economia e de relação com o mundo: uma lógica de compartilhamento e de corresponsabilidade. Os verdadeiros hackers que trabalham em prol de softwares livres e por uma web livre lutam por uma direção de liberdade. A grande batalha na web agora será entre que informações devem ser guardadas e protegidas e quais devem ser compartilhadas, qual será a lógica aplicada para o estabelecimento de critérios que orientem essas ações? Daisy relembrou o caso do estudante Aaron Swartz, que se suicidou após ser processado por invasão de servidores e divulgação de documentos do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT).
Uma das questões mais discutidas hoje em dia é a resiliência dinâmica, ou seja, precisamos tentar, discutir e fazer, não apenas aguentar os problemas resignados para sempre. A discussão já está na web e já está nas pessoas.
Sobre o ter e o ser Daisy fala sobre projetos como o Lixo Eletrônico (de Hernani Dimantas são iniciativas importantes para lembrar as pessoas sobre a necessidade de reciclar, de pensar no futuro com inteligência, e de que o importante não é ter, consumir ou status, mas sim pensar sobre as novas tecnologias: o que ela pode fazer de inovador. Não apenas consumir por consumir.
Professor Luiz Carlos Pereira pergunta sobre a frase "O Google é o nosso pastor e nada nos faltará". Será?
Daisy Grisolia responde que isso é uma verdade atual, mas é verdade somente agora. Antigamente não tínhamos esses recursos, tínhamos apenas as bibliotecas. Hoje em dia podemos achar artigos na web sabendo procurar, sabendo utilizar as ferramentas. Mas será que isso será verdade daqui a 10 anos? Provavelmente não, teremos inovações e novas tecnologias nesse segmento. A verdade não é única, Alethéia, personagem grega da mitologia, passa a imagem de desvendar as verdades. A mulher dos mil véus... Os modelos nos orientam, mas não são eternos, é preciso retomar e resgatar essa personagem e repensar sobre a verdade, ela tem mil véus... Não existe só um caminho para a inovação. O Google se caracterizou com maior força e universalidade, mas teremos muitos outros buscadores, como já temos.
As pessoas precisam entender que elas é que fazem da web um caminho útil, um lugar em que podemos passar boas informações ou podem fazer dela um lugar medíocre, as pessoas fazer isso não a web. Deus ajuda quem cedo madruga, na web lá pelas 4 da manhã tem uma turma que acabou de acordar e outra que nem foi dormir ainda. Faz parte do espírito da web dominar o espaço, a web não tolera indolentes, ela espera que você trabalhe por seus projetos, pelo seu site, por coisas novas que interessem pelo seu público. Para isso é preciso trabalho, muito trabalho. Devagar não se vai ao longe, pelo menos não na web de acordo com a Daisy Grisolia. O tempo é agora, resiliência dinâmica!!! Pensar é o mais subversivo dos atos, e a Web é esse caldo de cultura, um espaço aberto para pensar...
Para assistir o programa na íntegra clique aqui.
Parabéns à TVABCD pela 50ª edição do programa EMC² - Educação e o Mundo Corporativo, à Daisy Grisolia, ao professor Luiz Carlos e à produtora Janaína Sombra. O programa foi nota dez!
O programa EMC² vai ao ar toda sexta-feira às 14h. ; )

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Kzam!


João Kzam
João Kzam

Conheça o tio Google e saiba mais sua pesquisa sobre buscadores na internet
Conhecido como o Tio Google ou Googleman, João Kzam é formando em Tecnologia de Administração de Redes de Computadores pela União Educacional de Brasília (UNEB), é palestrante sobre o uso de motores de busca de conteúdo na internet há sete anos.
Nascido em 2009 o Bing, uma versão moderna do atual Live Search (antes conhecido por Live, Windows Live Search e MSN Search), foi lançado pela empresa Microsoft com certo atraso em relação ao Google e ao Yahoo!, e embora tenha chegado a ficar em segundo lugar entre os buscadores mais utilizados, não superou ainda sua popularidade e eficiência segundo João Kzam e muitos outros usuários. O diferencial do Bing é o painel de edição de pesquisa que trabalha com uma opção de busca por sugestões, divide sua busca por assuntos como saúde, viagens, compras, etc, e a partir da tecnologia semântica PowerSet, desenvolvida para uma linguagem natural para a internet.
O Google já existia a essa altura. Diferente do Bing o Google começou a ser projetado a partir da teoria do PageRank, ou seja, baseava o resultado de suas buscas pela quantidade que um termo aparecia na primeira página. Esse sistema funcionava a partir dos backlinks(links de entrada para um site) que podem estimar a importância de um site. Fundado em 1998, por Larry Page e Sergey Brin, a empresa Google possui uma extensa lista de produtose possibilidades de conexões com redes sociais e aplicativos.
“Além disso, a publicação 2600: The Hacker Quarterly compilou uma lista de palavras que a nova ferramenta de pesquisa instantânea do gigante da web não irá procurar. O site "Google Watch" também criticou os algoritmos do PageRank, do Google, dizendo que eles discriminam novos sites e favorecem os já estabelecidos, também foram feitas acusações sobre as conexões entre a Google, a NSA e a CIA. Apesar das críticas, o motor de pesquisa básica já se espalhou para serviços específicos também, incluindo um motor de busca de imagens, os sites de busca Google News, Google Maps e muito outros”. (Wikipédia)
Em março desse ano o Google anunciou que incorporaria recursos da web semântica em suas buscas, no entanto desde muito antes já tinha pretensões de desenvolver essa tecnologia. E não vamos nos esquecer do buscador Wolfram|Alpha, que tenta criar um novo conceito em busca também.
Mas afinal, quem é o melhor?
Em setembro desse ano o Buscador da Microsoft, Bing, lançou um desafio: a campanha "Bing It On". O desafio era um teste cego para os usuários escolherem qual dos buscadores seria o mais eficiente. Para participar bastava digitar um termo qualquer no campo de buscas e clicar em “Search”. Os resultados dos dois buscadores eram posicionados um ao lado do outro, mas sem identificação, e o usuário poderia escolher aquele que fosse mais satisfatório ou escolher os dois como empate. Depois de cinco rodadas o buscador vencedor era anunciado.

João Kzam não poderia ter deixado de fazer o teste, e ao ser perguntado sobre o resultado, não hesitou: “O melhor, sem dúvida é o Google. A equipe InovarEduca perguntou se entre o Google e o Bing, existia um vencedor.
Acompanhe a entrevista completa com João Kzam:

Existem buscas que você recomenda que sejam feitas ou no Google ou no Bing? Por exemplo, o Bing é melhor para artigos e o Google é melhor para imagens, existe algo assim?
Não existe alternativas de busca, ou você usa o que gosta ou usa o melhor. Gostar passa a ser uma consequência da sua satisfação com os resultados obtidos. Nas tentativas e experiências que fiz com o Bing, ele fica atrás do Google com uma gigantesca distância.
Qual o buscador que você mais usa? Por quê?
Uso unicamente o Google. Por que com ele tenho integração com outras funcionalidades que não só a busca web. Outras aplicações instrumentalizam a busca e potencializam seu uso. O que não teria se utilizasse outro motor de busca.
O que você acha do Bing?
É mais uma iniciativa tardia da Microsoft de se inserir numa área (busca) que não tinha dado crédito anteriormente. Com a bem sucedida ação do Google no setor, tenta conseguir sucesso.
A web semântica desenvolve um trabalho para melhorar o sistema de busca, estudando e compreendendo as intenções por trás de cada termo ou conjunto de termos associados em uma pesquisa, de forma a identificar o que o usuário realmente está buscando. Exemplo: maçã. Pode ser a fruta, pode ser maça do amor, pode ser o símbolo da empresa Apple. Qual buscador atende melhor as suas necessidades e traz os resultados mais corretos em suas pesquisas?
O Google é o que melhor trata a questão da web semântica, justamente por causa da integração dos sistemas. Além de todas as buscas especializadas (web, imagem, livros, produtos, mapas, aplicativos, disco, gmail, agenda, etc...) o Google permite o uso com outras funcionalidades, tais como: favoritos, histórico, adsense, adwords, etc...
É fato que pessoas tornaram-se muito dependentes do Google quando pesquisam qualquer coisa na internet, isso é bom ou ruim na sua opinião?
Em tempos de internet, ficamos dependente de toda e qualquer funcionalidade que facilita nossas atividades, o que não nos furta de passarmos por dificuldades seja numa determinada funcionalidade ou outra. Mas caminhamos para uma conexão ininterrupta, e esse tipo de problema não existirá dentro em breve. Pra ser mais exato, em 10 anos teremos uma virtual conexão ininterrupta, por conta de dispositivos verdes e meios de alimentação com maior tempo de vida, até que essa conexão ininterrupta possa ser real.
Como as pessoas realizavam suas pesquisas na web antes da Era Google?
De uma forma inimaginável e insatisfatória para os internautas de hoje. Na gênese da busca os "motores mortos" eram "cavernas" digitais que continham listas específicas, elitizadas e finitas. Nestas listas constavam os sites conhecidos pela elite da área de TI da época. No entanto, um pouco antes do surgimento e da posterior popularização do Google, como motor de busca, os internautas tinham relações de sites insignificantes e sem nenhum tipo de análise de relevância, pois qualquer um que tivesse uma conta no concentrados de sites poderia cadastrar o seu. Também era uma época pouco frutífera e democrática da web, pois a maioria das pessoas não tinham condições sequer de ter um domínio.
Por que você é conhecido como Tio Google ou Googleman? :)
Talvez por que as pessoas são muito simpáticas comigo, talvez por que perceberam que o potencial de busca ainda é subutilizado. Talvez por que amigos me identificam com o Google em virtude do trabalho que desenvolvo para a divulgação do uso proficiente e avançado do motor de busca há 7 anos na área acadêmica. Pra você ter uma idéia, brincadeira ou não, até quando o Google "baleia" me ligam, me mandam e-mail, tuitam ou perguntam pelo Facebook o que está acontecendo com o Google. (risos)
Ao final da entrevista João indica o seguinte vídeo que explica o que faz do Google o melhor buscador, clique aqui.
Entre em contato com João, ele é super conectado! ;)

João Dinaldo Kzam Gama

Valeu João Kzam!


 Leia mais sobre buscadores e novas tecnologias para busca aqui no InovarEduca:

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um ato solitário


Não Ego (2009) Fernando Reis Viana Neto

Uma reflexão sobre a falta de comunicação entre as pessoas e a arte da escrita
Há livros, e textos que são extremamente egoístas, uma terapia individual, uma conversa consigo mesmo, algo que “a pessoa escreve para si própria”. Não é incomum ouvirmos um artista ou escritor dizer que “escreve para si mesmo”, numa tentativa de dizer que se compraz com a escrita e a exerce por que é o que sente que deve fazer. Pouco se importa se sua escrita comunica de fato. E deixa que o leitor ou apreciador de sua obra sinta-se livre para “entendê-la” como bem quiser.
Para desvencilhar-se do peso e do liame das palavras que racionalizam tudo e se fecham contra a intuição, a imaginação ou o prazer de sentir, muitos combatem a “explicação, o entendimento, o racional, o caminho já traçado, a falta de criatividade, de liberdade” que não são privilégios apenas de quem cria, mas de quem entra em contato com a criação. Acredito que se isentam da responsabilidade de comunicar algo. Isentam-se da magia de construir pontes. Trancam-se em seus castelos e contentam-se com admiradores que não conseguem ver que o rei está nu.
No entanto, existe outro fato nessa história: se alguém faz algo só para si mesmo e não se importa com o entendimento do outro, então porque tornar público – publicar? Há ou não há uma incoerência nisso?
Unknown Artists Cairo Egypt
Unknown Artists Cairo Egypt

“O homem procura dominar o mundo em que vive. Uma forma de ele ter esse domínio
Mas o que é domínio?
Domínio: Entre outras definições... “Ser de domínio público: ser sabido de todos; constar em público. Conhecimento”. (Michaelis)
é o conhecimento. Esse é um dos motivos pelos quais ele procura explicar tudo o que existe. A linguagem é uma dessas coisas. Ao procurar explicar a linguagem, o homem está procurando explicar algo que lhe é próprio e que é parte necessária de seu mundo e da sua convivência com os outros seres humanos. Por que falamos? Para que falamos? Como falamos? Por que as línguas são diferentes? O que são as palavras? O que elas produzem? De posse desse saber sobre a linguagem, o homem tenta domesticar seus poderes e trazê-los para si. Será que ele consegue?” (Eni Pulcinelli Orlandi)
Expressar e comunicar são a mesma coisa? Você já parou para pensar se há diferença entre essas duas ações?
Expressar: Exprimir. Exprimir, segundo o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caudas Aulete, é enunciar por meio de gestos ou palavras; manifestar, indicar, dar a conhecer; representar por meio de uma forma artística ou literária (determinada ideia ou pensamento); explicar-se; mostrar-se.
O Grande muro, Daniel Murgel
O Grande muro, Daniel Murgel

Há ai uma tentativa de indicar algo, permitir que esse algo seja conhecido para outras pessoas, representar algo de forma explicada, entendível... E mais ainda, tudo isso em torno de uma determinada ideia ou pensamento, não é algo aleatório, tudo o que é feito é feito a partir de uma intenção ou vontade. Existe uma concordância geral em favor de uma fome ou apetite que impulsiona o ato artístico, no entanto o que impulsiona a “publicação”. O tornar algo público. Saramago, em seu livro “Todos os Nomes”, nos diz que “o apetite, o apetite não depende da vontade de cada um, forma por si mesmo...”. Penso que se escrevo para mim e me basta o meu entendimento, não preciso e não tenho a intenção de publicar. Se quero publicar é porque desejo construir uma ponte, uma porta de entrada em uma casa ou labirinto. Mas para atravessar a ponte é preciso uma entrada. Para entrar na casa é preciso uma porta. Se eu fechar a obra pra mim mesma, se não houver uma porta, não posso acusar o outro de ignorante por não conseguir entrar.
My Castle Zigmunt Zaradkiewicz, Polónia
My Castle Zigmunt Zaradkiewicz, Polónia

Essa casa, essa obra, possui portas para entrada. E lá dentro existem espaços e mais portas. Há casas que se perdem em corredores que parecem infinitos com portas aos montes, nenhuma sinalização, e quem entra pode perder-se ali e talvez não encontrar uma saída que não seja lançar-se pela janela em um ato de desespero, prometendo a si mesmo nunca mais entrar ali. Labirintos... Mas é possível haver uma casa em que se pode visitar, explorar seus espaços, quartos, corredores, e ainda assim encontrar duas ou três de opções de saída, que te fazem feliz por lhe dar a liberdade de sair e voltar quando quiser.

Comunicar: tornar comum; participar, fazer saber; Pôr em contato, em relação, ligar, unir; transmitir, pegar por contágio; dar parte de, fazer tomar parte em; estar em correspondência; aproximar-se; propagar-se... (Caudas Aulete).
Como escritora me preocupo em manter a porta aberta...
O poeta, considerado corumbaense, Manoel de Barros encantou-se com os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras." Dez anos de internato lhe ensinaram a disciplina e os clássicos a rebeldia da escrita.
Hands, Escher
Hands, Escher

"Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler "Vozes da Origem". Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". Está no livro "Vozes da Origem", da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento." (Fonte)
O poeta desconstrutor. Descontruiu a palavra tanta vezes, percorreu séculos atrás da primeira “careta” ou aparição sobrenatural de uma determinada palavra, pois voltando ao início era possível começar tudo novamente e reutilizar a palavra e observar se ela caminharia para o mesmo lugar.
Posso tomar sopa. Posso tomar carne? Posso tomar o corpo de alguém? Posso tomar gosto pela vida?
O verbo ainda é “tomar”...
“Uma vez atribuído um nome, ele passa a ter um valor na língua. Por isso, quando ouvidas, as palavras são logo associadas a seus objetos”, nos diz Eni no livro O que é linguística?
Desconstruir uma palavra, buscar sua origem é um trabalho para desassociar que vai limpando a palavra das imagens às quais foram associadas. Para uma boa comunicação utilizando-se a palavra é preciso permitir a comunicação, a participação do outro. Muitos escritores criativos buscam novas formas de se expressar por meio da escrita, e alguns conseguem isso mantendo a ponte firme. No entanto, outros caem na terapia individual, no monólogo, em um ato solitário.

Há o preguiçoso, o cientista da palavra, o descobridor e o ansioso. Nem tanto estudo e pompa que lhe cegue a vista para o orvalho, para o raro instante em que uma ave pousa em seu ombro, mas nem tão solto que ninguém te alcance...
Assim funciona a comunicação, desde a mais simples conversa até a arte.
"Quadro nenhum está acabado, disse certo pintor;
se pode sem fim continuá-lo,
primeiro, ao além de outro quadro
que, feito a partir de tal forma,
tem na tela, oculta, uma porta
que dá a um corredor
que leva a outra e a muitas outras."
(João Cabral de Melo Neto, "A Lição de Pintura")
The unexpected answer, René Magritte
The unexpected answer, René Magritte

Lygia Canelas
Bibliotecária e escritora, autora de "Vestígios".

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