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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Mobilização e coragem


Contribuição de Hernani Dimantas
Florianópolis precisou apenas de uma menininha de 13 anos para entender o que são as politicas da multidão. Isadora Faber fez apenas o óbvio. Colocou na Internet. A mobilização que acontece a partir daí não é desproposital. 244 mil pessoas curtiram o diário de classe. E assim, são notificadas de qualquer movimento. A secretaria, a escola, os professores até que tentaram intimidar. Mas entenderam o recado e preferiram investir no bom senso. Todo dia recebo novas recauchutagens no FB. O telefone agora funciona, os banheiros estão limpos. O que mais é necessário?
Bem, isso parece ingênuo. No entanto, faz quase 20 anos que Linus Torvalds colocou na internet os primórdios do Linux. Ele colocou seu conhecimento no campo de força. E as pessoas reagiram positivamente. A internet potencializa a colaboração. A grande sacada do Linus Torvalds não foi o Linux propriamente dito, mas a disponibilização de um projeto para ser discutido, implementado, melhorado, deletado, editado ou apenas dialogado. A  comunidade de desenvolvedores construiu um sistema operacional viável. E subversivo. Pois rompeu com o modelo de produção de software.
O Linux é a resposta da multidão. Foi criado pela colaboração entre pessoas comuns. Envolveu centenas de programadores espalhados pelo mundo. Foi concebido num outro paradigma. De baixo pra cima. E em rede, onde quem faz decide.
A menininha fez. Mostrou que é possível publicar sem pedir permissão. Liberou a voz para alegria dos ativistas e tristeza de quem não tem interesse em mudar. Ela também colocou a escola no campo de força. Os resultados imediatos já estão sendo colhidos. A maquiagem está funcionando. A mobilização, no entanto, é de longo prazo. Mas inexoravelmente vai romper o sistema que faz da criança um produto de massa.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Se você pensa que rede social é coisa nova...


Na contemporaneidade todos falam em redes sociais ou redes de relacionamento. E até parece que são termos novos, mas é importante entender a diferença entre as redes sociais e os sites de redes sociais na Internet. O homem já vivia em sociedade, e em estabelecia laços sociais, antes mesmo da invenção da internet, do Orkut e do Facebook.
Todo o grupo de pessoas com que o homem se comunica forma a sua rede de contatos, variando entre amigos, contatos profissionais, colegas, conhecidos, parentes, vizinhos, etc. O sociólogo espanhol Manuel Castells conceitua a sociedade contemporânea da seguinte maneira: A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. Essa sociedade é caracterizada [...] por uma cultura de virtualidade real construída a partir de um sistema de mídia onipresente, interligado e altamente diversificado. [...] Essa nova forma de organização social, dentro de sua globalidade que penetra em todos os níveis da sociedade, está sendo difundida em todo o mundo.
O cenário da Web, globalizado e glocalizado proporciona enorme ampliação na comunicação entre as pessoas, não importando a localização geográfica. Isso possibilita maior sociabilização entre indivíduos e grupos.
E porque nos aproximamos e formamos uma rede de contatos, seja em pela web ou ao vivo? Somos aproximados por simpatias, afetos, curiosidades, necessidades, interesses comerciais, etc e assim formamos nossos laços sociais e relacionamentos.
A web facilita essa comunicação porque nos oferece comodidade e um distanciamento seguro (e conveniente).
Raquel Recuero, reflete sobre o conceito de rede social a partir de Wasserman e Faust; Degenne e Forse, e nos diz que “Uma rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós das redes) e suas conexões(interações ou laços sociais).
Na figura acima temos os pontos, os nós, as pessoas (representado pelas bolinhas), as intersecções. Já os traços representam a quantidade de conexão, de contato, que ligam os pontos/pessoas/perfis. Uma pessoa pode estar conectada com várias outras pessoas que também estão conectadas a várias pessoas e assim por diante. Em uma rede social na internet como o Facebook, por exemplo, temos um “perfil” que seria a nossa representação, o nosso registro e através do qual podemos interagir com o perfil de outras pessoas, no mundo todo.
Uma “rede” é a interconectividade entre esses elementos. Por exemplo, você já ouviu falar em network. Network é a combinação das palavras net (rede) e work (trabalho), ou seja, uma rede de contatos profissionais.
As comunidades e os laços sociais existem fora das redes e também se formam a partir das redes. Comunidade, segundo o Dicionário Houaiss é o conjunto de pessoas que habitam um mesmo local e/ou ao mesmo tempo, e que possuem características comuns. É fácil agora entender que “comunidade” é também uma “rede social”.
O doutor em História da Filosofia pela Université de Paris IV, Rogério da Costa, reflete que “se solidariedade, vizinhança e parentesco eram aspectos predominantes quando se procurava definir uma comunidade, hoje são apenas alguns dentre os muitos padrões possíveis das redes sociais. [...] Estamos diante de novas formas de associação, imersos numa complexidade chamada rede social, com muitas dimensões e que mobiliza o fluxo de recursos entre inúmeros indivíduos distribuídos segundo padrões variáveis. [...] Digamos que, anteriormente, os indivíduos se deslocavam de um lugar a outro para interagir com sua rede pessoal, mas, atualmente, eles vivem uma dinâmica de relação em que saltam de uma pessoa a outra numa rede virtual de contatos. [...] isso não aponta para uma mudança em direção ao isolamento social, e sim na direção de uma maior flexibilidade no uso de redes sociais.
Essa flexibilidade permite às pessoas entrar em contato com um imenso número de pessoas, tanto conhecidas quanto desconhecidas. O motivo do contato pode ser a amizade, pode ser uma possibilidade de emprego, interesse amoroso, estudo, entre tantos outros motivos. As características desse tipo de contato via Web é uma maior frequência, facilidade, autonomia e ampliação da rede de contatos. Contatos podem ser feitos e desfeitos naturalmente, conforme as necessidades. Um aluno em um curso na web pode conversar com professores e alunos de outros países; pode compartilhar e receber informações com rapidez, livros, gráficos, sites, contatos, vídeos e etc.
A vantagem desse tipo de relação tem sido aprofundada pelas organizações, tanto com ou sem fins lucrativos, mas principalmente as organizações que possuem em sua missão e visão objetivos culturais e educacionais, para os quais o compartilhamento de informações é fundamental.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

M-E-T-A-M-O-R-F-O-S-E

Sobre o encontro com Edgar Morin no Sesc Consolação



"O brilho do fogo no alto, no céu, tem um longo alcance, iluminando e tornando manifestas todas as coisas (IChing) - Que o brilho e a vitalidade das ideias de Edgar Morin, aos 91 anos, em sua palestra ao vivo no Sesc ontem a noite, ilumine o dia de todos nós. Uma nova ordenação é necessária, que é mais do que uma simples reforma. Trata-se de uma metamorfose que se estende a todos os setores da existência, ao mesmo tempo. Vida pessoal, social, profissional, econômica, moral, política e espiritual - todas as dimensões terão que encontrar novos padrões, por mais improvável que isso possa parecer. É no território do improvável, do impossível de hoje que o novo surge com toda sua força. Então, mais do que nunca, desafiar o estabelecido é preciso". Daisy Grisolia, pesquisadora na área de educação e tecnologia.

Edgar Morin nasceu em Paris, em 1921, é um sociólogo e filósofo francês. No dia 03/07 Morin tratou sobre o tema “Consciência Mundial: por um conceito de desenvolvimento para o século XXI” no Sesc Consolação, em São Paulo/SP.

Em uma era onde se pode ter acesso a tudo, os saberes estão dispersos. Os seres humanos também. Morin nos alerta para a falta de unicidade da espécie humana e um individualismo exacerbado que leva a uma morte lenta da solidariedade. O coletivismo é interação, contato, conversação e essas são as melhores maneiras para que possamos lidar com os medos, as angústias múltiplas e os problemas da vida. A reflexão de Morin está relacionada ao que Zigmunt Bauman trata em seu livro “Modernidade Líquida”, em que nos diz que as pessoas têm procurado por exemplos e não mais por líderes, querem resolver tudo sozinhas, tornarem-se autossuficientes. Existe uma grande dificuldade em transferir as questões privadas de interesse público para a esfera pública. No entanto, uma parte considerável de pessoas já percebeu o perigo e entendeu que uma “sociedade em rede” precisa do trabalho coletivo, do compartilhamento, de comunidade de união. 

“Se você não procurar o inesperado, você não o encontrará”. Heráclito

Toda mudança causa medo, mas Morin nos relembra que no passado a humanidade mudou de caminho várias vezes. “'Todas as mudanças são modestas e se espalham pelo mundo, e por isto, não devemos nos desesperar. O pior nunca é uma certeza”. As três maiores religiões do mundo iniciaram-se a partir de mensagens isoladas, individuais que conquistaram o mundo. A tendência em continuarmos inertes é que o planeta caminhe para uma catástrofe e um abismo de egos. Precisamos reaprender a resolver problemas básicos (tanto das nossas vidas quanto problemas mundiais socioeconômicos) que dependem do trabalho em equipe e do olhar pela janela, uma janela que pode ser a tela de um computador, mas com um propósito diferente do que apenas seguir a maré. Exemplo disso foi o recente RIO+20, um fracasso já esperado devido a ausência de consciência dos estados acostumado a olhar somente para o próprio umbigo. 

“A internet é a oitava maravilha do mundo. Fantástico receber esse riquíssimo conhecimento, sem sair de casa. (...) A internet não deve eliminar o mestre, o professor, o contato, o afeto deve continuar, uma relação de troca de conhecimento. Com certeza algo de novo surgiu no planeta com a Internet, uma espécie de sistema neuro-cerebral - essa força desenvolve o melhor e o pior. A internet é ambivalente. Isso nos obriga a sermos mais vigilantes e inteligentes para desenvolver o melhor e não o pior dela”, diz Morin.



Esse novo tipo de sociedade, tão necessário, começa por nós. Estamos mal acostumados a esperar a mudança de fora, a esperar que alguma mídia noticie em primeira mão e legitime depois para que aceitemos submissos. Desde cedo entramos na sociedade e começamos a ser domesticados - socialmente domesticados. "As crianças passam por uma domesticação sociológica, o que adormece as suas capacidades criadoras”. Todos os pequenos riachos desaguam em um grande rio. Precisamos fluir para um grande rio de águas coletivas, encontrar forças criadoras, sintonizar com as mudanças disruptivas e caminhar lado a lado, parar de correr e competir cegamente. Muita gente não sabe por que está correndo ou para onde. Alguém começa a correr e todos de repente estão fazendo o mesmo. Estamos perdendo a visão do horizonte.



"Estamos usando as fantasias dos nossos avós. Ou trocamos de roupa e nos salvamos, ou fingimos que não é conosco e deixamos para a próxima geração". - Lígia Batista (1988)

E então, vamos continuar parados?



Assista o vídeo completo da palestra feita por Edgar Morin, no Sesc Consolação no dia 03/07/12. Clique aqui.






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